Poemas e Sonetos
Poesia é a intenção estética pretendida pelo artista, que, através da sua linguagem de arte, busca expressar uma ideia ou sentimento. Assim, a poesia não é exclusividade dos conteúdos escritos em palavras; ela é um elemento subjetivo e abstrato que pode estar presente em poemas, pinturas, fotografias, músicas e em qualquer outra forma de arte, até mesmo em uma situação não registrada por nenhuma linguagem artística. A poesia, portanto, transcende a arte para ter uma independência latente, que resiste apesar do artista, como muito bem expressa Carlos Drummond de Andrade no excepcional poema Procura da Poesia, distinguindo bem o que seja poesia do que seja poema: “A poesia (não tire poesia das coisas) / elide sujeito e objeto. / (...) / Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. / Estão paralisados, mas não há desespero, / há calma e frescura na superfície intata.”
Poema é uma estrutura textual organizado em versos e estrofes. O número de versos em cada estrofe é livre e pode variar dentro do mesmo poema. Com exceção da organização em versos e estrofes, não existem regras fixas que caracterizem os poemas. Assim, os poemas podem ou não conter rimas, aliterações, metáforas ou quaisquer outras técnicas ou figuras de linguagem, a critério do poeta. Poema é apenas uma das formas de expressar a poesia. Há poemas em que a forma e a disposição como as palavras são organizadas sobre a folha branca do papel remetem ao significado e mensagem que o autor quer impactar o leitor, a exemplo da poesia concreta. Logo, Poesia é ‘o quê’ – e Poema é ‘o como’ um artista se expressa.
Soneto é um tipo especifico de poema marcado por sua estrutura fixa de 4 estrofes, sendo 2 quartetos (4 versos) e 2 tercetos (3 versos), compostos com versos decassílabos (10 sílabas poéticas), esta, não a estrutura única, mas a mais comum entre nós, da língua portuguesa, herança da poesia de Francesco Petrarca, poeta italiano, estética imortalizada em língua portuguesa por Luís Vaz de Camões, que fez escola entre nós, brasileiros, a exemplo de Olavo Bilac, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos e Vinícius de Moraes, só para citar alguns dos nossos grandes da literatura brasileira.
Prosa poética é o texto que apresenta forma de prosa, mas função de poesia, usando para isso algumas características típicas dos textos poéticos, como aliteração, metáfora, sonoridade das frases etc. A estruturação do discurso pode ou não permanecer alongada, assemelhando-se, neste caso, a um conto ou romance, por exemplo. A obra mais citada, como exemplo desse gênero, é “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa, excelente encontro entre prosa e poesia. Mas podemos citar ainda outros exemplos clássicos de prosa ricamente poética como “Iracema”, de José de Alencar, ou “Missal”, de Cruz e Sousa. Exemplifiquemos com este pequeno trecho, de “Iracema”: “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros. Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas. Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela? Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano? Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora. Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.” (Início do Capítulo I).
Poema em prosa (sutilmente difere do anterior) - texto poético composto de algumas linhas até algumas páginas ou mais. Serve-se ou não dos mesmos “artifícios” da poesia - aliteração, a metáfora, a elipse, a sonoridade das frases etc., sem haver quebra de linhas em versos.
TOMARA (Poema)
Vinicius de Moraes
Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho
Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...
SONETO DO AMIGO
Vinicius de Moraes
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
MORTE (Poema em Prosa)
Paulo Venturelli
Lembrar que tudo morre é ordenar as coisas em ritmo de finitude. Ter em cada adereço um desenho de despedida. Assim, chegada a hora, tudo se solta com mais facilidade. Tudo cumpre seu papel de cinza e névoa dissolvendo-se no parlamento do dia. Findar-se. Eis a história. Todas as lutas estão amadurecidas. Ergue-se o braço e toca-se algum contorno. Não como alguém que se vai agarrar a ele. Como quem está empenhado em desfazer-se do último contato. Assim o mar toca a areia. A areia arregimenta os pés coroados de brancura. Eles vão para o fim com o canto doce do corpo turvo. Até tudo tornar-se sombra no mais além do gesto.

Bailarino (Poema em Prosa)
